Unos auriculares colgados de un soporte junto a un tocadiscos con un vinilo
Música

Sete discos para ouvir devagar

Por Kumera


MÚSICA

Sete discos para
ouvir devagar

Há discos que tocam em fundo e discos que mudam a temperatura de uma divisão. Os segundos raramente são os mais sonantes nem os mais recentes. Foram gravados por alguém com tempo, boas mãos e sem demasiada pressa em agradar a toda a gente.

Outubro 2026
Leitura 6 min

Ter toda a música do mundo no bolso criou um problema curioso: sobra oferta e falta critério. Escolher bem tornou-se uma forma de cuidado, parecida com escolher um bom pão ou um bom azeite. Com a música há ainda ciência por trás. Uma revisão publicada em 2020 na revista Health Psychology Review reuniu os resultados de 104 ensaios controlados e concluiu que ouvir música reduz o stress, tanto em medidas fisiológicas, como o ritmo cardíaco, como na sensação que cada pessoa declara.

104
ensaios controlados analisados
9617
participantes no total

Fonte: de Witte et al., Health Psychology Review, 2020

A seleção que se segue reúne sete discos de países, décadas e estilos muito diferentes. Têm pouco em comum no som. O que partilham é que nenhum precisa de ruído para se aguentar, que as suas canções falam de casa, de amizade, de caminhar ou de não dizer nada, e que são feitos com um ofício que se nota à décima audição.

Uma mão a segurar um telemóvel com um leitor de música no ecrã

Toda a música no bolso. Escolher continua a ser connosco.

Sete discos, sem pressa

01

Para manhãs lentas

In Between Dreams

Jack Johnson · 2005

Gravado no Havai e produzido por Mario Caldato Jr., é um disco de guitarra acústica, percussão suave e uma voz que parece cantar sem sair do sofá. “Banana Pancakes” tem fama de canção de domingo de manhã e merece-a. “Better Together” e “Sitting, Waiting, Wishing” mantêm o mesmo pulso tranquilo até ao fim.

02

Para tardes de domingo

Getz/Gilberto

Stan Getz e João Gilberto · 1964

Gravado em Nova Iorque em 1963 com Antonio Carlos Jobim ao piano, levou a bossa nova a meio mundo e foi o primeiro disco de jazz a ganhar o Grammy de álbum do ano, em 1965. A voz de Astrud Gilberto em “The Girl from Ipanema” é uma lição de simplicidade. O saxofone de Stan Getz soa como alguém que baixa a voz de propósito.

03

Para cozinhar em companhia

Still Bill

Bill Withers · 1972

“Lean on Me” foi número um nos Estados Unidos em 1972 e continua a ser cantada por todo o mundo. O resto do disco é soul de câmara: guitarras acústicas, uma base rítmica contida e uma voz que dispensa enfeites. Resulta muito bem com alguém ao lado a descascar legumes.

A música que melhor envelhece costuma ser a que não teve pressa em chamar a atenção.

04

Para tardes de chuva

No Need to Argue

The Cranberries · 1994

Para lá da canção mais conhecida, o segundo disco da banda de Limerick guarda baladas como “Ode to My Family” e “Ridiculous Thoughts”, sustentadas pela voz de Dolores O’Riordan e aquele quebrar de voz tão seu. Guitarras limpas, melodias longas e uma sensação de abrigo, ideais para uma tarde de chuva.

05

Para longas tardes de verão

Con Todo el Mundo

Khruangbin · 2018

Um trio de Houston que mistura soul, dub, funk tailandês e sons do Médio Oriente. Quase não há letra. A guitarra de Mark Speer, o baixo de Laura Lee e a bateria de Donald Ray Johnson deixam muito ar entre as notas. Peças como “Maria También” e “August 10” pedem janelas abertas.

Nota

Uma regra caseira que funciona: um disco por semana. Se ao sétimo dia continuar a saber bem, já faz parte da casa.

06

Para ler e concentrar

I Giorni

Ludovico Einaudi · 2001

O pianista de Turim compôs este disco depois de uma viagem ao Mali, e em algumas peças ouve-se a kora de Ballaké Sissoko. “Nuvole Bianche” abre um espaço de calma em poucos minutos. Piano, cordas e silêncios que também fazem parte da música. Acompanha bem a leitura, o trabalho que exige concentração ou a hora antes de dormir.

07

Para um jantar sossegado

Ali and Toumani

Ali Farka Touré e Toumani Diabaté · 2010

Dois grandes do Mali, um com guitarra e o outro com kora, gravaram este disco em Londres em 2005. Foi editado em 2010, quatro anos depois da morte de Ali Farka Touré. É uma conversa entre dois instrumentos que se escutam com atenção, ao ritmo de quem não tem nada a provar.

Como lhes dar espaço

Um disco completo dura entre trinta e cinquenta minutos, mais ou menos o que demora a fazer-se um estufado ou a ler-se um capítulo. Ouvi-lo inteiro, pela ordem em que foi gravado, é uma das maneiras mais simples de fazer algo devagar. As listas aleatórias são cómodas, mas desfazem o que o artista ordenou com cuidado.

Não é preciso equipamento caro. Uns bons auscultadores ou uma coluna pequena na cozinha chegam. Ajuda escolher o disco antes de começar, silenciar o telemóvel e deixar que a primeira canção sirva de sinal de que começa outra parte do dia.

A qualidade da gravação também conta. Quase todos estes discos foram feitos com instrumentos reais, em salas reais e com poucas camadas de produção, e isso nota-se assim que se ouvem com atenção: ouve-se a sala e o ar entre os instrumentos. Quem tiver um gira-discos encontra aqui bons motivos para o estrear, e quem ouve em streaming pode ativar a qualidade alta nas definições da plataforma.

Qual foi o último disco ouvido de ponta a ponta, sem olhar para o telemóvel uma única vez?

Sete discos são um ponto de partida. Cada casa acaba por ter os seus, e quase sempre chegam por acaso, pela mão de alguém que disse ouve isto.

Pôr um disco e deixá-lo tocar até ao fim. Às vezes basta.

Fontes e referências

  1. Martina de Witte et al. Effects of music interventions on stress-related outcomes: a systematic review and two meta-analyses. Health Psychology Review, 14(2), 294-324, 2020. doi.org/10.1080/17437199.2019.1627897
  2. Recording Academy. Álbum do ano, 7.ª edição dos Grammy Awards (1965). grammy.com
Kumera
Escrito por Kumera